a sombra

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Dizem que nós somos nossa morada. A nossa casa tem uma fachada, clara, visível e atraente, por vezes não. Mas revelam o que queremos que se revele ao outro.

De uma forma intensa e acumulativa, conforme vivemos vamos juntando traumas, histórias e memórias. Algumas memórias se congelam e permanecem, outras derretem-se no calor do tempo, entretanto há aquelas mais difíceis de ir embora sob o sol.

Sempre pairando sobre nossa ‘casa’ vive uma sombra, ela fica por detrás do que podemos perceber sozinhos e onde não há luz nem percepção tátil.

Por vezes, quando estamos com uma chama fraca, ela assombra mais forte, e, inusitadamente, leva a mente ao desespero.

Bem dentro da casa mora uma criança, ela é meiga, bonita e pura, e representa a verdade do mundo. Ela sente medo deste monstro! Medo quando não entende sua forma, quando suas falhas surgem pelo escuro e seus medos gritam e sua cara embranquece.

Certa vez, surgiu um lobo pela floresta ao redor da casa, sua mãe não estava. Esse lobo a fez se iludir e enganou a pobre criança se fingindo de fraco e amoroso, mas por fim, a presenteou com frutas amargas. Quando ele se foi, na solidão, a sombra surgiu com intensidade escancarando toda sua fragilidade. De imediato, houve muita resistência, choro, raiva e sentimentos de injustiça com sua fome.

Por orientações dos seus amigos da floresta e por um impulso e bênçãos, ela resolveu abraçar a sombra com amor e coragem, antes desta se manisfestar, violenta na madrugada da mente. Foi um ato secreto, instintivo, e então neste momento, ela se integrou àquela força que parecia monstruosa e, vislumbrou que a sombra só queria, na realidade, ser reconhecida e acolhida.

A criança, enfrentando-a, sentiu todo o medo e insegurança que sentia há anos; e sentou-se com sua sombra, e descobriu que ela era, na verdade, uma outra criancinha, também indefesa, que nunca se olhou e que tinha sido abandonada, por isso crescia sinistra e fortemente de forma incontrolável.

Tomaram chá na lareira e se descobriram grandes aliadas, cada uma pôde mostrar o que trazia em si. O lado luminoso e o lado obscuro, que era feio, se fundiram em um único ser, momentaneamente. Na verdade, após esse encontro, a criança sempre sabia e sentia quando a sombra ia chegar… Então, calmamente fervia uma água e acendia o fogo, clareando seu ambiente e agradecendo à existência de lobos que rondam e ensinam; e que também, se questionados a fundo, não passam de ovelhas que nos espelham.

Harih om.

Pollyana.

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poesia

b93c8e76b0461ca30a06cd1805871b75 Eu como um cavalo cego

Em um trote em disparada

Estou só e preso na ilusão

De só ser o couro e a sede.

Mas se acaso eu abro os olhos

Da mente e do coração

A felicidade é

A luz da minha visão.

Polly.

art: Elena Shved

A poesia dança nos versos sem precisar se explicar . . . veja mais essa incrível do professor Hermógenes. om.

conexão

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O que ajuda a nos qualificar para aprender um conhecimento novo com um professor sobre determinado tema? Pensando nisto, fui desafiada a procurar dentro de minha personalidade as qualidades e defeitos em se entregar a um novo estudo para poder possuir este conhecimento.

Algo que sempre fui é curiosa. Desde pequena perguntava tudo aos meus pais sobre as coisas e este é um traço característico que me levou desde cedo a não me fechar em pacotes prontos de ideias e conceitos, a me abrir para ouvir assuntos diversos e permitir o crescimento. Esta é uma qualidade que serve como uma fagulha para aprender.

O que me levou a me interessar por vedanta, conhecimento da tradição védica, foi uma profunda conexão com o professor. Quando vi a chamada para um curso e o acompanhei, logo após as primeiras aulas quis entrar em um curso regular. Essa confiança que surgiu e me conectou, assim como o sentido que o conteúdo fazia, me acendeu e pude ter fé nas palavras dele e nos estudos dos textos. É como se algo em mim movida pela turma, já me apontasse o caminho e, por mais longo ou difícil que ele possa parecer, não importará, porque sei que é por ele que devo seguir e o tempo não importa. Esta qualidade que julgo ter se chama shraddha. E agradeço a Deus por ter sentido tal coisa e também por poder abri-la para todas as áreas da minha vida – na oração, no relacionamento familiar, nos exercícios de yoga, na vida profissional etc. Por exemplo, em alguns momentos em que me sinto angustiada por variados motivos, essa fé chega e acalma o meu ser, pois entendo a mutabilidade das minhas emoções do meu corpo e sei que não sou essencialmente eles, de fato.

Sinto que para entender o que o tema traz, de tamanha lógica e mesmo assim tão abstrato, é preciso algum grau de inteligência, memória e raciocínio, pois é preciso estar atento para as ideias não fugirem, se embaralharam toda e se confundirem na mente. Após um tempo, após ouvir uma aula ou assimilar algum texto, é preciso lembrar-se dele, visualizar o objetivo central e contemplar o que foi aprendido, e esta qualidade acredito possuir em um certo grau para poder adquirir o conhecimento. O nome dela é smrti. Desta forma, quando me vejo só, em algum lugar bonito e somente me ponho a contemplar, tento rever o conteúdo que sei, que apreendi, e refaço mentalmente o caminho. Quando consigo uma paz e felicidade mesmo que temporária, me sinto esplêndida e conectada.

Algo que preciso desenvolver é a força de vontade e a coragem para aplicar e viver tais ensinamentos em minha vida, sem condenações. Algumas vezes encontro dificuldades e me vejo preguiçosa e por mais que me esforce, adio atividades fortemente recompensadoras, procrastinando-as. Gosto de fazer asanas, mas não os faço com tanta regularidade; medito, porém não todos os dias, até mesmo as disciplinas do Ayurveda que são tão vitais, não andam mais muito presentes em minha rotina, nem me lembro quando foi o último panchakarma – desintoxicação. Me lembro de quando o fiz, e me sentia leve e radiante. Hoje com a correria de vida e escolhas pequenas, vejo como a habituação domina. Comodismo e piloto automático no que aparenta ser mais fácil e rápido, ou com menos esforço? Talvez, mas sei que o fato de poder escrever sobre isso me traz uma vontade que motiva a mudar tais comportamentos, sendo mais disciplinada, praticando diariamente yoga em todas as suas nuances e me qualificando para poder estar cada vez mais apta a me conhecer de verdade. Já me organizei e quero ser mais coerente com o que penso e ajo, e você?

Nessa conversa comigo mesma, amanhã inicio um poorvakarma, que antecede uma desintoxicação/purificação ayurvédica, e nos próximos posts explico os benefícios que se tratam essa limpeza física e mental do organismo. Também me foi ensinado pelo professor uma disciplina eficiente para melhorar a confiança em nós mesmos – acordar as 6 da manhã por 12 meses e fazer 12 surya namaskar para desenvolver maior virya – maior autoconfiança/força/coragem/potência. Vamos juntos praticar?

Om.

art: Nieve Waleska

Para entender a tradição Parampara de discípulo e mestre veja este artigo.

desejo que você tenha

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Quando pensamos nos desejos que um homem possui, o mundo inteiro se torna uma vitrine na mente, com visões do que possa lhe trazer prazer.

Quando se alcança um desejo, o mundo está perfeito e você pode relaxar e ser feliz…até surgir o próximo; o que não demora muito. Às vezes, o que eu desejo agora no momento, posso não desejar mais amanhã. Ou o que eu desejo não é desejado por outra pessoa ao meu lado, assim meu desejo muda de acordo com a minha mente e contexto.

Assim, há desejos para toda espécie de tamanho e valor. Eles são infinitos e mutáveis, acontece que nem no mundo físico nem no mundo social, pode um homem conseguir uma satisfação verdadeira de tudo o que seu ser busca, já dizia aquele velho rockeiro inglês.

O yoga e outras tradições ao ensinar que se deve eliminar os desejos para ser uma pessoa feliz e espirituosa, tem sua interpretação erroneamente alcançada. O que a tradição védica (ver Vedas) explica é que todos os desejos do homem moderno são saudáveis; até mesmo os animais desejam e são movidos por instinto a procurarem alimento, carinho e proteção. É um movimento natural.

Neste contexto, os desejos – chamados de kāma  constitui um dos 4 Puruṣārthas  juntamente com artha, dharma e mokṣa – os objetivos que o seu humano busca na vida. O desejo é produzido pela nossa mente frente a um mundo de necessidades e vontades. Ele, juntamente com a necessidade de se sentir seguro (artha), está envolvido com o prazer e a segurança. O entendimento de sua utilidade e objetivo vem ao realizarmos ações que não queiram só atingir estes desejos.

As escrituras (Upanishads) ensinam – īśvarārpita necchayā ktam – fazer ações sem desejo. Isso não significa que você não deva ter desejos, o que é impossível, pois você deseja um prato de almoço quando tem fome. Portanto, a coisa da qual queremos ser livres precisa existir, ou seja, o desejo deve estar presente para que eu possa ser livre dele. Após este reconhecimento de que ele é real, há sua análise e a retirada de sua fantasia.

As coisas do mundo aparente que podemos tocar, ver, sentir, escutar e que são mutáveis são chamadas de mithya. Dessa maneira, o desejo possui uma forma e traz camuflada uma ideia. Por exemplo, por que uma pessoa deseja um elogio? É um desejo dela por reconhecimento, ou alguma insegurança de sua personalidade, ou quando criança, talvez, ela não tenha recebido muita atenção de seus pais..? Assim descobrimos que por trás de todo desejo se esconde algo real, livre da fantasia. Após quebrar essa casca de pensamentos e emoções, podemos nos perguntar de onde vem o desejo e qual a raiz deste sentimento.

Ao se desconstruir o peso do desejo e o seu julgamento, não queremos eliminá-lo à força; e ao analisá-lo melhor, percebemos que a maioria dos desejos cai somente em um – a nossa necessidade por amor, por amar.

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“O que você fará quando se libertar de todos os desejos, menos do desejo de ser livre do desejo?”

Isso traz um conforto imenso e uma relatividade melhor na vida para lidar com os desejos, que são momentâneos, não-absolutos e mithya e portanto impossíveis de nos trazerem a felicidade plena, pois é parte de uma ação (karma) realizada por nós, sendo limitada no tempo-espaço. Algo limitado não pode nos trazer a felicidade ilimitada. Só o que é pleno é capaz de nos trazer uma felicidade plena. Como algo limitado me fará ilimitado? Enquanto permanentes e limitados, nunca nos veremos livres dos desejos, que se tornam uma ferramenta que nos ajuda a viver com maior equilíbrio.

Vejo que são somente objetos do mundo e da mente, me certifico de sua real dimensão e me relaciono melhor com eles sem esperar seus frutos.

Para mais textos com este tema sobre Vedanta, acesse Prazer e sofrimento.

 harih om :)