a sombra

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Dizem que nós somos nossa morada. A nossa casa tem uma fachada, clara, visível e atraente, por vezes não. Mas revelam o que queremos que se revele ao outro.

De uma forma intensa e acumulativa, conforme vivemos vamos juntando traumas, histórias e memórias. Algumas memórias se congelam e permanecem, outras derretem-se no calor do tempo, entretanto há aquelas mais difíceis de ir embora sob o sol.

Sempre pairando sobre nossa ‘casa’ vive uma sombra, ela fica por detrás do que podemos perceber sozinhos e onde não há luz nem percepção tátil.

Por vezes, quando estamos com uma chama fraca, ela assombra mais forte, e, inusitadamente, leva a mente ao desespero.

Bem dentro da casa mora uma criança, ela é meiga, bonita e pura, e representa a verdade do mundo. Ela sente medo deste monstro! Medo quando não entende sua forma, quando suas falhas surgem pelo escuro e seus medos gritam e sua cara embranquece.

Certa vez, surgiu um lobo pela floresta ao redor da casa, sua mãe não estava. Esse lobo a fez se iludir e enganou a pobre criança se fingindo de fraco e amoroso, mas por fim, a presenteou com frutas amargas. Quando ele se foi, na solidão, a sombra surgiu com intensidade escancarando toda sua fragilidade. De imediato, houve muita resistência, choro, raiva e sentimentos de injustiça com sua fome.

Por orientações dos seus amigos da floresta e por um impulso e bênçãos, ela resolveu abraçar a sombra com amor e coragem, antes desta se manisfestar, violenta na madrugada da mente. Foi um ato secreto, instintivo, e então neste momento, ela se integrou àquela força que parecia monstruosa e, vislumbrou que a sombra só queria, na realidade, ser reconhecida e acolhida.

A criança, enfrentando-a, sentiu todo o medo e insegurança que sentia há anos; e sentou-se com sua sombra, e descobriu que ela era, na verdade, uma outra criancinha, também indefesa, que nunca se olhou e que tinha sido abandonada, por isso crescia sinistra e fortemente de forma incontrolável.

Tomaram chá na lareira e se descobriram grandes aliadas, cada uma pôde mostrar o que trazia em si. O lado luminoso e o lado obscuro, que era feio, se fundiram em um único ser, momentaneamente. Na verdade, após esse encontro, a criança sempre sabia e sentia quando a sombra ia chegar… Então, calmamente fervia uma água e acendia o fogo, clareando seu ambiente e agradecendo à existência de lobos que rondam e ensinam; e que também, se questionados a fundo, não passam de ovelhas que nos espelham.

Harih om.

Pollyana.

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desejo que você tenha

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Quando pensamos nos desejos que um homem possui, o mundo inteiro se torna uma vitrine na mente, com visões do que possa lhe trazer prazer.

Quando se alcança um desejo, o mundo está perfeito e você pode relaxar e ser feliz…até surgir o próximo; o que não demora muito. Às vezes, o que eu desejo agora no momento, posso não desejar mais amanhã. Ou o que eu desejo não é desejado por outra pessoa ao meu lado, assim meu desejo muda de acordo com a minha mente e contexto.

Assim, há desejos para toda espécie de tamanho e valor. Eles são infinitos e mutáveis, acontece que nem no mundo físico nem no mundo social, pode um homem conseguir uma satisfação verdadeira de tudo o que seu ser busca, já dizia aquele velho rockeiro inglês.

O yoga e outras tradições ao ensinar que se deve eliminar os desejos para ser uma pessoa feliz e espirituosa, tem sua interpretação erroneamente alcançada. O que a tradição védica (ver Vedas) explica é que todos os desejos do homem moderno são saudáveis; até mesmo os animais desejam e são movidos por instinto a procurarem alimento, carinho e proteção. É um movimento natural.

Neste contexto, os desejos – chamados de kāma  constitui um dos 4 Puruṣārthas  juntamente com artha, dharma e mokṣa – os objetivos que o seu humano busca na vida. O desejo é produzido pela nossa mente frente a um mundo de necessidades e vontades. Ele, juntamente com a necessidade de se sentir seguro (artha), está envolvido com o prazer e a segurança. O entendimento de sua utilidade e objetivo vem ao realizarmos ações que não queiram só atingir estes desejos.

As escrituras (Upanishads) ensinam – īśvarārpita necchayā ktam – fazer ações sem desejo. Isso não significa que você não deva ter desejos, o que é impossível, pois você deseja um prato de almoço quando tem fome. Portanto, a coisa da qual queremos ser livres precisa existir, ou seja, o desejo deve estar presente para que eu possa ser livre dele. Após este reconhecimento de que ele é real, há sua análise e a retirada de sua fantasia.

As coisas do mundo aparente que podemos tocar, ver, sentir, escutar e que são mutáveis são chamadas de mithya. Dessa maneira, o desejo possui uma forma e traz camuflada uma ideia. Por exemplo, por que uma pessoa deseja um elogio? É um desejo dela por reconhecimento, ou alguma insegurança de sua personalidade, ou quando criança, talvez, ela não tenha recebido muita atenção de seus pais..? Assim descobrimos que por trás de todo desejo se esconde algo real, livre da fantasia. Após quebrar essa casca de pensamentos e emoções, podemos nos perguntar de onde vem o desejo e qual a raiz deste sentimento.

Ao se desconstruir o peso do desejo e o seu julgamento, não queremos eliminá-lo à força; e ao analisá-lo melhor, percebemos que a maioria dos desejos cai somente em um – a nossa necessidade por amor, por amar.

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“O que você fará quando se libertar de todos os desejos, menos do desejo de ser livre do desejo?”

Isso traz um conforto imenso e uma relatividade melhor na vida para lidar com os desejos, que são momentâneos, não-absolutos e mithya e portanto impossíveis de nos trazerem a felicidade plena, pois é parte de uma ação (karma) realizada por nós, sendo limitada no tempo-espaço. Algo limitado não pode nos trazer a felicidade ilimitada. Só o que é pleno é capaz de nos trazer uma felicidade plena. Como algo limitado me fará ilimitado? Enquanto permanentes e limitados, nunca nos veremos livres dos desejos, que se tornam uma ferramenta que nos ajuda a viver com maior equilíbrio.

Vejo que são somente objetos do mundo e da mente, me certifico de sua real dimensão e me relaciono melhor com eles sem esperar seus frutos.

Para mais textos com este tema sobre Vedanta, acesse Prazer e sofrimento.

 harih om :)

Como a espiritualidade se relaciona com o dinheiro?

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Quanto vale a paz para você? Nunca poderíamos pagá-la mas mesmo assim a valorizamos imensamente. A concepção de poder pagar por ela é uma ilusão. Quanto você pagaria pelo preço de conhecer o seu real propósito na vida ou de poder acessar através de um professor ou um mestre um conhecimento fundamental acerca de si mesmo? Não devemos ser hipócritas, o dinheiro não é um ‘mal’ necessário, dinheiro é simplesmente necessário e todos precisamos ganhá-lo, bem ou mal para viver. A moeda é um meio de troca que socialmente possuímos como na época dos escambos, só pra ser bem recente e em que na tradição védica se compara à seva (um trabalho realizado como troca, agradecimento ou oferecimento a um conhecimento recebido). Portanto no mundo da espiritualidade também não funciona diferente. Por que temos a ideia de que uma aula de yoga precisa ser muito acessível, e ao mesmo tempo um jantar em um lugar caro vale o dobro de seu valor e não é questionado? Temos em nossa cultura um tabu quase que religioso ou diabólico ao relacionar  o dinheiro e a espiritualidade, e tendemos a colocar o peso das injustiças do mundo neste pequeno papel, como se ele fosse a causa das desigualdades que existem.

Sabemos que no sistema capitalista em que vivemos, todo trabalho é consequência de um esforço que foi feito por um indivíduo e devido ao seu tempo e habilidades, ganhou-se seu respectivo valor. Se a sociedade nos proporcionasse tudo o que precisássemos de graça, não teria sentido em cobrar por aulas de autoconhecimento ou meditação visto que as necessidades de todos estariam garantidas, mas sabemos que não funciona assim. Isso pode causar nas pessoas uma mentalidade em que se valorize muito aquilo que se possui materialmente e acabe dando maior importância às pessoas que possuem tais condições e bens em detrimento do ser. Entretanto, hoje em dia, aqueles que buscam se autoconhecer e querem cultivar uma vida mais saudável, como por exemplo com o Yoga e outras práticas, também valorizam o dinheiro, é claro! Somente a partir dele é possível frequentar aulas, estudar com um professor, visitar templos, fazer peregrinações e viagens, comprar livros etc. Se trata de uma relação em si, e portanto, é mister também que tenhamos uma boa relação com ele e que o demos o devido valor com pensamentos coerentes, como em toda e qualquer área de nossa vida. Só desta forma ele pode fluir de acordo com nosso suor e Dharma.

Me lembro quando estive em Rishkesh e assim que pisei em um dos templos à beira do rio, não entendia muito sobre os rituais daqueles homens.  Após um deles me oferecer a puja (o pujari), abençoar, entoar alguns mantras e passar cinzas na minha testa, me senti plena e pura, até ele pedir uma contribuição pelo seu ato, o qual interpretei como um abuso por ele não ter perguntado antes se eu concordaria, e até o considerei um indiano malandro! Pensei que seu ato era somente para me receber e que havia sido uma estrangeira ingênua em acreditar que ele o estava fazendo gratuitamente. Dei algumas rúpias, mas me senti um pouco invadida, não pelo valor que era irrisório, mas pela sensação que é comum na Índia por assim dizer em várias ocasiões, de invasão. Algo parecido se repetiu em Pushkar, em um lago sagrado, mas dessa vez as orações e oferecimentos foram oferecidas a serem compradas por um boleto com um valor grande que valia para vários dias de rituais. Engraçado, pensei, será que não se podia participar ou rezar livre e gratuitamente neste local ou assistir à uma cerimônia específica? Não pelo que pareceu, em algumas circunstâncias tinha uma contribuição se você estivesse em um recinto privado, o valor do conhecimento e prática do pujari, o gasto com a compra das flores, cuidado com a limpeza, canto dos devotos, a própria atmosfera que criavam, como dizem ‘tudo tem seu preço’ e o mais importante – é dada uma retribuição genuína a Deus de acordo com a tradição.

Por fim, há um valor para cada trabalho, seja daquela que vê o futuro nas cartas de um tarô,  daquele que constrói uma casa ou daqueles que salvam vidas como um médico ou bombeiro, e daqueles que rezam uma missa ou puja, dão aulas de Yoga ou Vedanta e proporcionam conhecimento e capacidade de devoção às pessoas. Respeitar este tópico não se trata de exploração, é um meio de vida. Porém atente quando é exploratório e alguém lhe diz para doar tudo que construiu a vida toda a um ashram de um novo guru que o libertará. 

O que fazemos com o dinheiro para realizar as devidas ações é o que realmente importa mas a verdade é que é um recurso indispensável e fundamental principalmente no universo da espiritualidade. Não podemos ajudar se não possuímos meios para tal.

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Que saibamos rezar para que Lakshmi, a forma de Deus simbolizando riqueza, os recursos, a fartura material e espiritual, nos dê não só saúde, força e fé; mas também condições e nos permita continuar aprendendo graças ao preço deste conhecimento que nos é tão caro.

Harih om :) Se quiser se aprofundar, este texto se relaciona à esse artigo de Vedanta.

Quando a dor do outro se estende à nós

O momento em que aos 18 anos decidi ir viver a minha vida como bem entendesse longe de tudo e de todos, me levou a uma ilha em que meus sonhos se realizariam e onde haveria espaço e tempo para praias, amigos, amores e liberdade. Assim fui e assim foi. Por um tempo. Qual surpresa não dei às minhas amigas após 2 anos e meio quando decidi me mudar para São Paulo e por lá ficar, ninguém compreendendo muito bem – nem mesmo eu – o porquê saí do paraíso, até entender hoje que tal conceito não existe absolutamente.

Na cidade que não para, vivi rápidos e intensos 8 anos, e em um momento de profundo cansaço e falta de sentido me vi sozinha e sem ânimo em continuar a viver naquele ritmo tão veloz, doentio e caro estudando e trabalhando muito, e você já pode imaginar – eu amo aquela cidade, mas me tornara uma paulistana infeliz neste último ano.

Ao saber que meu pai iniciaria um novo tratamento para hepatite C, senti um aperto no peito e no meio da madrugada na academia senti que deveria voltar para casa…após dez anos. A minha vontade era de estar perto para o que precisassem, ajudar com terapias que fossem confortantes e dar o meu amor e carinho.

Após somente 15 dias em casa, em janeiro de 2014, eu acordo com uma chamada de um desconhecido dizendo que meu pai havia sofrido um acidente de moto e que se encontrava em uma unidade de saúde em uma cidadezinha próxima a Ribeirão Preto, onde moramos. Seu estado era grave, porém não corria risco de vida. Os outros de casa estavam viajando e eu sem mesmo conhecer a área fui ao seu encontro. Uma carreta havia o mandado para bem longe em sua moto, na qual estava sem proteção nas roupas, e somente com um capacete aberto. Disseram que ele tivera sorte e que era uma chance de Deus, de fato!

Ele teve algumas costelas quebradas, as articulações se romperam e os ossos do ombro se moeram em várias partes, assim como os do cotovelo. O vi deitado na maca, muito ralado e inchado naquela precariedade que é uma UBS brasileira. Passou por várias cirurgias e sua recuperação foi lenta, dolorosa e difícil. Há sequelas e movimentos que não se concretizarão mais. Houveram momentos de muita tristeza, raiva e frustração perante esse trágico acidente. O pior ainda estaria por vir e no momento em que escrevo ainda não terminou. Esta foi uma etapa.

Desde seus 28 anos ele tem Hepatite C e já iniciou o tratamento com Interferon algumas vezes, porém este o levou a outras doenças neuropáticas, precisando ser interrompido. Ao buscar por um novo tratamento, iniciou-o no meio do ano passado com um medicamento muito forte que possui inúmeros efeitos colaterais entre eles febre, fraqueza, anemia, oscilações do humor, irritabilidade, depressão, diabetes, emagrecimento, perda do apetite, etc etc, mas que promovia a desejada cura.

Estamos a um mês de finalizar este processo e têm sido desgastante e impactante para todos aqui em casa. Há vezes em que não reconheço mais a pessoa alegre que ele costumava ser e brincalhona no modo de viver; sempre carinhoso e muito próximo, hoje prefere se isolar. Aconteceram inúmeras brigas e discussões entre nós, em sua maioria devido aos efeitos psíquicos que a droga causa e no próprio sofrimento e raiva que ele direciona a quem ama e ao estar passando pela pior fase de sua vida.

Desde criança, e mesmo adulta, sou muito apegada a ele. Somos parecidos em personalidade – ambos leoninos, alegres, belos e felizes por viver. Minha mãe conta que quando nasci, ele vendeu uma moto para pagar uma suíte no hospital à princesa dele que havia chegado. Hoje sinto uma tristeza que sei ser passageira, como toda emoção. Vejo que este sentimento se reflete em muitas áreas da minha vida, desde a busca por segurança, novos relacionamentos com os homens e abertura àquilo que é novo, como novos amigos e grupos. Sinto que uma parte de mim está doente junto e irá se fortalecer muito em breve.

Estou em uma nova cidade em que não é simples se adaptar aos lugares, pessoas, cultura e ritmo. Também vivo um momento de vida universitária que me preenche cada dia mais e me traz certeza de assertivos rumos, mas também me vejo ansiosa por não trabalhar tanto quanto gostaria e necessito, me encontrando em um momento muito introvertido e quase sem viajar por aí, coisa que sempre amei fazer .

Neste momento da minha vida sinto que estou muito sensível, mas nunca estive tão próxima de mim mesma. Por vezes choro sem motivo aparente, ou choro por todas as razões escancaradas dos que me rodeiam e daquilo que me toca.

Episódios assim mostram que somos tão frágeis quanto um motociclista batido por um caminhão nos ensinando que a vida às vezes é efêmera e pode ser mais curta do que queremos; e podemos ser tão fortes como uma borboleta que se rasga de um casulo rumo à verdadeira percepção da realidade da vida, a qual após a dor, descobre que pode ser mais leve e colorida ao abandonar a casca que a contrai e oprime.

O que surge de dentro dela, e do meu pai, sempre esteve lá, só aguardando o tempo e a oportunidade para amadurecer e crescer, encontrando forças internas em Si mesmos. Hoje me vejo junto a eles novamente e sei que o melhor lugar para estar é esse. Essa base tão firme, amável e coruja foi o que me permitiu voar, voltar e recuperar fôlego para novos futuros vôos.

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“Aqui onde a cor é clara
Agora que é tudo escuro

…Amor é tudo que move
O melhor lugar do mundo é aqui,
E agora”

Para saber mais sobre karmas e sofrimento.

Desilusão das ilusões.

7066b1729be6359bbbe0a89ecdbe1996Vou compartilhar com vocês, neste momento de descobertas sinceras e relatos necessários, um fato pessoal marcante e eu diria até que um divisor de águas em minha vida até então. Trata-se de um evento que abalou estruturas rígidas internas, que na verdade eram feitas de pó. Pode parecer um caso banal de coração partido, melodramático e sofrido. Afinal – quem nunca? Mas eu, nunca. Até meus 26 anos, vivi uma vida refletida principalmente por um prisma muito colorido e inocente de ser, bem Pollyana (como o livro). Já tinha tido muitos relacionamentos amorosos, muitos mesmo, e naquele momento estava feliz em um. Trabalhava em uma clínica de Ayurveda em São Paulo, continuava meus estudos nessa área que eu amava e vivia na metrópole ao lado de uma pessoa maravilhosa, em todos os aspectos loiros e azuis. Nossos planos de conhecer a mística Índia, turistar e estudar se concretizaram e no Natal de 2011 aterrissávamos em Pune para ficar por uns 4 meses e meio com direito a uma passadinha pelo Nepal e um Eurotour bem descolado. E assim foi, fantástica, com momentos bons em muitos dos lugares pelos quais percorremos; e outros mais tensos, mas belos igualmente. Havia valido a pena o árduo trabalho com tantos tratamentos, abhyangas, udwarthanas e shirodharas feitos que custearam tudo.

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Mas, sempre tem um ‘mas’, como a vida é essa caixinha de surpresas que abrimos, após dez dias de nossa volta dessa ‘lua-de-mel’ e convívio intenso, o cravo brigou com a rosa. E a rosa era muito dramática e sentimental (rs)! Pois bem, vou deixar a metáfora de lado. Demorou uns três dias para eu entender que não era um tempo e que era sim o fim de algo, o ‘pé na bunda’. Lembro-me que sentia algo rompendo dentro de mim que doía dentro do coração, no pulmão e na alma. Não é poesia, foram nas vísceras mesmo, quem sofre sabe; e eu nunca tinha sofrido assim, prazer em conhecê-la, Dor. Vieram raivas e choros, sensação de vazio e rejeição e o ego inflando e doendo em algo muito forte dizendo – você precisa aceitar e move on! Como vivíamos juntos, no trabalho e em casa, à noite e de dia, foi uma falta imensa que senti. Como se esta pessoa fosse algo grudado em mim, uma prótese de mente e corpo; e ele também sentiu isso, esse desapego foi necessário aos dois. Disse que precisava ficar sozinho, achava que não me amava como mulher, e sim como amiga, e veio aquele papo ‘furado’ mas verdadeiro e compreensível. Entendi através da razão e procurei permanecer forte, mas assim do nada e de repente, como me sentir melhor logo após essa ‘desilusão’? Eu era frágil, e percebi toda minha insegurança e tudo o que eu projetava na relação, algo que visivelmente não iria funcionar e nós ali, éramos como Um, algo doentio.

Após 1 semana, pedi pra sair da clínica deixando inclusive meu chefe bem espantado com tamanha impulsividade pois trabalhávamos juntos, e procurei novos espaços para atuar, visto também que não estava mais me sentindo realizada ali, independente do fato. Emagreci, essa parte até que foi boa, não tinha apetite pela vida e só sabia lamentar nesse primeiro momento. Procurando falhas em mim, nele, nos outros e no mundo e buscando em quê e em quem colocar a culpa. Não achei. A frustração aumentava. A minha necessidade naquele momento era de uma companhia, era de amor e de acolhimento; sentia uma carência muito grande e uma falta da minha família e do que me era familiar. Minha mãe detestou esta fase, tão triste e forte, da qual rimos hoje; pois eu ligava e chorava, às vezes não falava nada, como criança – e ainda tinha que ouvir meu pai dizer: É bom pra ela aprender! :)) Fui obrigada a trabalhar minhas emoções, com os amigos, inclusive um deles o yoga claro, pois não tinha condições para bancar uma boa terapia. O rapaz, para piorar minha sensação, após pouco tempo, havia arranjado outra companheira, o que aumentava ainda mais o meu sentimento de inferioridade, incapacidade de me amar e sustentar o que eu achava que ele queria e todas as fantasias imagináveis e inimagináveis que criamos em cima de nossa imagem e do que devemos ser.

Me fechei a princípio, depois me abri para novas pessoas e experiências que aos poucos foram me trazendo uma acomodação, uma maior confiança em mim mesma, uma maior compreensão dos meus medos, traumas e curando monstros que eu nunca tinha sequer notado por dentro e tão de pertinho. Juntamente, veio um sublime entendimento de que eu realmente era sozinha, e eu tinha que me resolver e me aceitar. E essa foi a lição, muito bem dada, mostrando que em nada controlamos os acontecimentos da vida. Se tratou em grande parte de um orgulho, que se desfez; de uma paixão e amor lindos que passaram; de momentos que hoje são lembranças e de amizades feitas que hoje são presentes.

Aquilo me transformou internamente, e senti logo após este rompimento uma força absurda que surgiu das minhas próprias convicções, um poder de libertação incrível e em um certo momento, tudo estava lindo e perfeito. Era isso, eu tinha que me conhecer mais, perceber as minhas fragilidades, minhas incapacidades, dificuldades de entrega, perceber as sombras que a ‘luz cega’ do outro por estar muito próxima não nos permite enxergar, olhar os sentimentos egoístas que não assumimos e a ignorância montada sob ignorância, de nós mesmos, e do outro, lógico. Não somos mais metades e sou mais forte. Hoje entendo quem me relata essa dor, que é subjetiva de cada um e me lembro da minha, que me ensinou com amor e tão arduamente.

Sinto que ainda persiste uma pequena semente deste sentimento já ressisgnificado, como um vestígio, não é algo que some do nada. Mas, também sempre tem um bom ‘mas’, senti genuinamente minha capacidade de seguir adiante “apesar de…”, sei reconhecer mais minhas fraquezas, conheci a tristeza que é querer e não poder e ainda assim estar tudo bem e pronta para viver o que vier e isso me levou inclusive a traçar um novo rumo para minha vida, ampliando minha área de atuação e seguindo serena.

Com a ajuda do Yoga e da meditação pude analisar melhor minhas emoções e mente e perceber que não sou elas. Elas passam, transtornadas às vezes como nesse sábio momento, mas eu permaneço, imutável e entregue. E juntamente com o Vedanta, nas outras relações que tive tudo também foi caminhando de forma mais suave para o final, feliz ou não, não importa.

Hoje é um amado amigo que não vejo muito e quando dizem – só o tempo, realmente entendi que é só o tempo. Passou, passado. O agradeço.
O sentimento é de gratidão às devis (deusas) do amor, da sabedoria, da cura e da morte; aprendizado na força do Eu, e a destreza em navegar em mares turbulentos, que antes calmos, eram superficiais e sem sal. Minha mente e emoções se fortaleceram com essa história de menina que hoje me transformam cada vez mais em mulher.

om sakti sakti sakti.

Este foi um texto escrito para um estudo de Vedanta – como o lindo relato deste amigo português que passou por uma situação parecida – o caso do querido João. Om.

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como o yoga e o vedanta entraram na minha vida

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Desde adolescente tenho curiosidade em conhecer e viver as práticas orientais e terapias naturais, sempre quis encontrar minha verdadeira natureza. As primeiras aulas de yoga se pareciam com alongamentos ousados fáceis junto com respirações, que ao fim traziam um relaxamento bom, seguido de cházinhos e uma professora carinhosa! Me sentia bem, gosto das coisas exóticas e lá a gente cantava o mantra Ommmm bem longo (: (E há 15 anos o yoga em uma cidade do interior não era tão conhecido). Após escutar este chamado por um natural ‘way of life’, fui estudar Naturologia em Floripa, e nas aulas de yoga de lá, a instrutora loira surfista, ressaltava – “é um yoga individual, vejo o que cada um precisa, analiso a postura, faço alinhamentos, é diferenciada e dou asanas diferentes para cada um bla bla”, ok. A experiência foi crescendo…E então ao me mudar para São Paulo e, perdida com X opções, frequentei outras aulas desde academias que uniam as modalidades com Pilates, até escolas de Iyengar Yoga, Astanga Vinyasa Yoga, Kundalini Yoga, Hatha Yoga; e na Índia nos cursos de Ayurveda, também haviam aulas mas sem nenhum ‘adjetivo’, porém, na verdade considerava-as monótonas e desestimulantes. Enfim, felizmente resolvi buscar um curso que me fizesse compreender a unidade final, ou começar a entender, o corpo do yoga, o que de verdade objetivavam todas aquelas diferentes práticas, o que eram os oitos ramos do Astanga Yoga, o famoso Patanjali. Me sentia em um labirinto oriental, como muitos, vendo só o aspecto físico das práticas, e estas mesmo se contradizendo ou se comparando; sendo que nem sempre eu sentia os benefícios de cada uma ou não encontrava minha mente mais saudável e calma, pelo contrário às x, mais distraída e em outras com muita energia e agitada, à noite! Por fim, neste curso de imersão (com Pedro Kupfer, se tiverem curiosidade) comecei a abrir minha mente e coração para além do corpo físico e da mente; e aí então começou pra mim a desmistificação do que é a coisa toda, veio o entendimento tradicional do que as escrituras diziam, seja pelos yogas sutras ou outras Upanishads (ensinamentos); e meu caminho simplesmente foi se traçando cada vez mais firme e nítido, com a ajuda de vários amigos que me indicavam passos.

Navegando, em meu feed do Facebook surgiu um curso de Vedanta grátis on-line. Acessei, e após me identificar com este conhecimento e com o professor, bem como com sua linguagem, entrei para a turma regular. Estudar Vedanta têm me ajudado no curso de Psicologia a ampliar minha visão e na minha vida – passei a adquirir uma firmeza interna muito verdadeira e real, eu diria até que libertadora em mim. É como se eu sempre tivesse buscado por esta sabedoria, sem saber. Está me trazendo mais segurança, compreensão e habilidade ao lidar com minha mente, com os meus relacionamentos, com as minhas emoções e com meus medos. O interessante é o método tradicional do ensino que vai te levando à natureza mais profunda, do Eu, sem utilizar discursos espirituais sem pé nem cabeça ou vazios, nem frases prontas ou de fé cega; alguns conceitos são quebrados, crenças e doutrinamentos sem base são discutidos e aniquilam-se quaisquer dúvidas do que vai se construindo internamente, na mente através de linhas de raciocínio, o que contribui para meu crescimento espiritual, mental, emocional etc. A primeira lição que entendi foi que: não se trata de um ‘me tornar’ uma pessoa diferente em um futuro distante – após ter feito profundas meditações, práticas de posturas difíceis, rituais secretos, ter zerado os desejos, ter me ‘iluminado’ – para então ser feliz, completa e livre, sem decepções, o que todos querem! Não, pelo contrário, é dito que – já somos o que procuramos, aqui e neste momento. Só lendo isso, parece repetitivo e nada demais, mas você já tentou viver de acordo com isso? Não é tão simples pois temos muitos traumas e condicionamentos. Mas nisto principalmente, o Vedanta têm sido essencial e eficaz, aprender a lidar com o mundo como ele é. São mudanças cognitivas, lógicas e objetivas que ensinam o que é preciso, destruindo a ignorância que existe, passo-a-passo, e o professor sabe como fazê-lo. Este estudo só acontece através de disciplinas, com o uso das ferramentas do yoga (desde cantos de mantra, puja, yogasana, meditação – por isso é preciso ter este preparo) e com o método guruparamparām – de transmissão viva das mensagens ensinadas de mestre à discípulo, há milhares de anos, apoiado nos Vedas (fonte do conhecimento da humanidade) ensinados com o coração de Swami Dayananda (mestre de Vedanta). Este estudo está me fazendo crescer e abrir os olhos para o real propósito da minha vida, desenvolvendo minha religiosidade – que é diferente de religião; e uma fé em Iśvara (Deus, em sânscrito; ou o nome que você quiser dar), me introduzindo na tradição. Só tenho a agradecer por ter entrado em contato com o yoga no passado, continuar praticando e conhecer o Vedanta no presente e poder continuar entusiasmada neste caminho de estudo looongo sim, que se iniciou com curiosidade, amor e devoção. Já não me encontro mais tão aflita e ansiosa como antes. E quando estou, sei melhor como lidar com as situações e emoções, já não busco ser algo diferente do que já sou. Embora recém-começado, têm me trazido paz, entendimento sincero, mais oração, confiança na ordem de tudo, contemplação, conexão com a natureza e simplicidade divinos; mas também uma maior sensibilidade e lutas internas difíceis. Sei que tenho muito o que melhorar e a história não termina assim tão cedo, por isso eu nem colocarei um ponto final :)))

oṁ śāntiḥ śāntiḥ śānti

Se quiser conhecer mais, acesse:

O encontro com Yoga e Vedanta

http://www.yoga.pro.br

Qual o papel das técnicas do Yoga?

76192b93dc34553320ab3704148566f6 (1) 2 Vivemos num tempo onde praticamente toda a informação sobre qualquer assunto está disponível na internet, bastando apenas que o internauta seja perspicaz e paciente o suficiente para garimpá-la.  Esta disponibilidade vem bem a calhar em certas situações, como, por exemplo, quando alguém precisa de uma receita rápida de bolo de chocolate. Contudo, esta mesma disponibilidade instantânea de informação torna-se um problema quando o assunto é yoga.

O yoga dispõe de inúmeras técnicas de exercícios físicos, respiratórios, meditativos e comportamentais que pretendem atenuar os obstáculos que impedem a vida de uma pessoa de se expressar mais plenamente. Basta que olhemos rapidamente qualquer manual de hatha-yoga ou mesmo pôsteres modernos  de asanas executados por alguém aparentemente sem ossos para que não nos reste dúvidas quanto à multiplicidade de coisas possíveis de serem feitas sob o nome de yoga.

As pessoas então olham para esta abundância de técnicas e imediatamente concluem que o avanço no yoga é o avanço no domínio de todas as técnicas. O raciocínio parece tão lógico quanto um mais um são dois, e no entanto ele está completamente equivocado. A ideia de que um yogin “avançado” deve fazer todos os asanas, todos os pranayamas, todos os “kriyas” e também as meditações é absurda, e é um dos grandes obstáculos que o yoga enfrenta na atualidade. Esta conclusão, quando somada à facilidade com que todas estas técnicas podem ser acessadas por qualquer um em textos, fotos e vídeos “explicativos” na internet, torna as coisas ainda piores.

Mas afinal por que o yoga apresenta tantas técnicas, se não são para serem progressivamente dominadas pelo yogin? A variedade de recursos desenvolvidos pelo yoga ao longo do tempo tem dois motivos principais: a variedade de pessoas e a variação da mesma pessoa ao longo do tempo.

Yoga é a capacidade de estar vivo para uma alguma realidade, sem que padrões mentais a encubram ou distorçam. Para isso, uma pessoa deve possuir uma mente clara, alerta e calma, paciente, capaz de uma análise objetiva de si mesma e do mundo. Todas as técnicas – quer sejam posturas físicas ou meditação – visam em última análise este tipo de mente. Acontece que aquilo que pacifica e anima uma pessoa pode perturbar a outra com igual eficiência. Isto não é bastante óbvio?

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Mande um jovem de vinte anos com a mente dispersa mas com boa disposição física fazer uma série de uma hora e meia de asanas que exijam sua habilidade física e concentração e é bem possível que ele se torne mais calmo e focado no final da prática. Peça para alguém de quarenta anos com a mente mais calma e focada mas com aversão a exercícios físicos executar as mesmas técnicas e no final da aula ele estará com raiva de você! Isto se ele não sair de lá machucado, o que é bem mais grave do que uma reação emocional pontual.

 Agora peça ao sujeito de quarenta anos que se sente e observe a respiração contando mentalmente o tempo de inalação e exalação – uma técnica frequentemente usada no yoga –  e é possível que ele aprofunde a qualidade do seu estado mental, ao passo que o jovem de vinte anos ficará frustrado e ansioso com a aplicação da mesmíssima técnica.

E será que este mesmo jovenzinho continuará colhendo os benefícios eternamente daquela mesma prática de asanas que no começo lhe servia?  A resposta é bem fácil: com certeza não. Porque ele mudará. Ele arranjará um emprego, se casará e terá três filhos, e não terá tempo para praticar asanas por uma hora e meia como gostaria de fazer. E, se insistir em praticar desta forma, ele terá uma série de desequilíbrios que superarão infinitamente qualquer beneficio que uma prática de asanas poderia dar. Ele terá que acordar às quatro e meia da manhã, ficará com sono, perderá rendimento no trabalho, brigará mais com a mulher, não terá tempo para os filhos que se tornarão distantes, e assim por diante.

É claro que ele precisa de uma nova prática que se encaixe com sua nova rotina e responsabilidades. Talvez dez minutos de pranayama duas vezes ao dia sejam o suficiente. Ou meia hora de meditação pela manhã? Talvez ele não precise executar técnica alguma, apenas focar na qualidade do seu trabalho e da vida familiar. Quem sabe o que ele deveria fazer?

O professor dele deve saber, ou ao menos ter alguma ideia, a ser discutida e testada com ele. Este é um ponto crucial. As técnicas do yoga não são para serem escolhidas pelo praticante como ele escolhe legumes numa feira livre, mas estão disponíveis para serem avaliadas e escolhidas pelo professor, que está fora da cabeça do praticante e livre dos seus pontos cegos, ao mesmo tempo que o conhece com intimidade.

Outra confusão muito frequente com relação às técnicas de yoga é a suposição de que uma técnica mais difícil ou complicada indica que o praticante que a realiza é mais avançado ou que está mais perto do objetivo final.  – “Sabe de nada, inocente”, diria um grande mestre. O objetivo do yoga é fazer você estar com você mesmo, ao invés de estar identificado com toda a complicação mental usual. Quanto mais complicada a ferramenta que você precisa para atingir este simples objetivo, mais incapacitado você é, não é mesmo?

Esse texto foi escrito por Luciano Giorgio no Satsangaonline.

Om!