Quando a dor do outro se estende à nós

O momento em que aos 18 anos decidi ir viver a minha vida como bem entendesse longe de tudo e de todos, me levou a uma ilha em que meus sonhos se realizariam e onde haveria espaço e tempo para praias, amigos, amores e liberdade. Assim fui e assim foi. Por um tempo. Qual surpresa não dei às minhas amigas após 2 anos e meio quando decidi me mudar para São Paulo e por lá ficar, ninguém compreendendo muito bem – nem mesmo eu – o porquê saí do paraíso, até entender hoje que tal conceito não existe absolutamente.

Na cidade que não para, vivi rápidos e intensos 8 anos, e em um momento de profundo cansaço e falta de sentido me vi sozinha e sem ânimo em continuar a viver naquele ritmo tão veloz, doentio e caro estudando e trabalhando muito, e você já pode imaginar – eu amo aquela cidade, mas me tornara uma paulistana infeliz neste último ano.

Ao saber que meu pai iniciaria um novo tratamento para hepatite C, senti um aperto no peito e no meio da madrugada na academia senti que deveria voltar para casa…após dez anos. A minha vontade era de estar perto para o que precisassem, ajudar com terapias que fossem confortantes e dar o meu amor e carinho.

Após somente 15 dias em casa, em janeiro de 2014, eu acordo com uma chamada de um desconhecido dizendo que meu pai havia sofrido um acidente de moto e que se encontrava em uma unidade de saúde em uma cidadezinha próxima a Ribeirão Preto, onde moramos. Seu estado era grave, porém não corria risco de vida. Os outros de casa estavam viajando e eu sem mesmo conhecer a área fui ao seu encontro. Uma carreta havia o mandado para bem longe em sua moto, na qual estava sem proteção nas roupas, e somente com um capacete aberto. Disseram que ele tivera sorte e que era uma chance de Deus, de fato!

Ele teve algumas costelas quebradas, as articulações se romperam e os ossos do ombro se moeram em várias partes, assim como os do cotovelo. O vi deitado na maca, muito ralado e inchado naquela precariedade que é uma UBS brasileira. Passou por várias cirurgias e sua recuperação foi lenta, dolorosa e difícil. Há sequelas e movimentos que não se concretizarão mais. Houveram momentos de muita tristeza, raiva e frustração perante esse trágico acidente. O pior ainda estaria por vir e no momento em que escrevo ainda não terminou. Esta foi uma etapa.

Desde seus 28 anos ele tem Hepatite C e já iniciou o tratamento com Interferon algumas vezes, porém este o levou a outras doenças neuropáticas, precisando ser interrompido. Ao buscar por um novo tratamento, iniciou-o no meio do ano passado com um medicamento muito forte que possui inúmeros efeitos colaterais entre eles febre, fraqueza, anemia, oscilações do humor, irritabilidade, depressão, diabetes, emagrecimento, perda do apetite, etc etc, mas que promovia a desejada cura.

Estamos a um mês de finalizar este processo e têm sido desgastante e impactante para todos aqui em casa. Há vezes em que não reconheço mais a pessoa alegre que ele costumava ser e brincalhona no modo de viver; sempre carinhoso e muito próximo, hoje prefere se isolar. Aconteceram inúmeras brigas e discussões entre nós, em sua maioria devido aos efeitos psíquicos que a droga causa e no próprio sofrimento e raiva que ele direciona a quem ama e ao estar passando pela pior fase de sua vida.

Desde criança, e mesmo adulta, sou muito apegada a ele. Somos parecidos em personalidade – ambos leoninos, alegres, belos e felizes por viver. Minha mãe conta que quando nasci, ele vendeu uma moto para pagar uma suíte no hospital à princesa dele que havia chegado. Hoje sinto uma tristeza que sei ser passageira, como toda emoção. Vejo que este sentimento se reflete em muitas áreas da minha vida, desde a busca por segurança, novos relacionamentos com os homens e abertura àquilo que é novo, como novos amigos e grupos. Sinto que uma parte de mim está doente junto e irá se fortalecer muito em breve.

Estou em uma nova cidade em que não é simples se adaptar aos lugares, pessoas, cultura e ritmo. Também vivo um momento de vida universitária que me preenche cada dia mais e me traz certeza de assertivos rumos, mas também me vejo ansiosa por não trabalhar tanto quanto gostaria e necessito, me encontrando em um momento muito introvertido e quase sem viajar por aí, coisa que sempre amei fazer .

Neste momento da minha vida sinto que estou muito sensível, mas nunca estive tão próxima de mim mesma. Por vezes choro sem motivo aparente, ou choro por todas as razões escancaradas dos que me rodeiam e daquilo que me toca.

Episódios assim mostram que somos tão frágeis quanto um motociclista batido por um caminhão nos ensinando que a vida às vezes é efêmera e pode ser mais curta do que queremos; e podemos ser tão fortes como uma borboleta que se rasga de um casulo rumo à verdadeira percepção da realidade da vida, a qual após a dor, descobre que pode ser mais leve e colorida ao abandonar a casca que a contrai e oprime.

O que surge de dentro dela, e do meu pai, sempre esteve lá, só aguardando o tempo e a oportunidade para amadurecer e crescer, encontrando forças internas em Si mesmos. Hoje me vejo junto a eles novamente e sei que o melhor lugar para estar é esse. Essa base tão firme, amável e coruja foi o que me permitiu voar, voltar e recuperar fôlego para novos futuros vôos.

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“Aqui onde a cor é clara
Agora que é tudo escuro

…Amor é tudo que move
O melhor lugar do mundo é aqui,
E agora”

Para saber mais sobre karmas e sofrimento.

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