ISVARA

ISVARA, como sendo a causa material da criação e causa inteligente do universo.18194830_10213094000009292_5269485227956211256_n

O universo inteiro é visto pelo Vedanta como corpo físico do criador – chamado de Isvara. Os pancamahabhutas (cinco elementos) formam o corpo do criador. Um só corpo (átomos) é o corpo de Isvara, assim isvararupa é a forma universal de Deus. Ele é chamado de Harikesa, cabelos verdes; nilakanthah – pescoço azul; Sahastrapak – mil pés, infinitos; sahastraksah – mil olhos que são todos os olhos; ou quando vemos o céu à noite, as estrelas são os olhos de Isvara.

Ele é contemplado na forma de uma pessoa, para pensarmos que é um ser consciente. Para isso, visualizamos assim para ter disposição adequada. Podemos olhar para o mundo como se de fato ele fosse Isvara, e de fato o é. Nessa contemplação, o meu próprio corpo físico é uma parte de Isvara. Isvara tem esse corpo imenso – virarthi, ou seja, é gordo como Ganesa – é lambodhah: é o universo inteiro, barrigudo, pesado.

Isvara também tem um corpo sutil, que é o corpo sutil total. A capacidade de ver, sentir cheiro, tocar, etc. e abrange os 5 pranas, os 5 órgãos de percepção e os 5 órgãos de ação. A capacidade fisiológica do corpo é sutil e Isvara é este prana total = sutratma: sutra sendo o fio. Ele dá vida a todo ser vivo, ligado a esse fio e dispersamos a energia do prana através do movimento da vida. O prana é a energia que anima tudo. Esse ser sutil total é o corpo sutil de Isvara, que inclui também nossos pensamentos. É todo corpo sutil na forma de tudo o que nos anima e está em um ciclo de vida; que é diferente de nosso corpo sutil (samana, vyana, etc). que está restrito a mim.

Isvara nesta forma é  hinanyagarbha: é o útero dourado, garbha é útero.

Isvara tem também o corpo causal que é mayasakti – o poder primordial da criação, onde estão toda a inteligência, potência e de onde tudo é criado. É ele quem joga as cartas e a mágica. Em mayasakti não há sequencia, nem tempo. Ele contém todos os karmas, tudo o que todos viveram, vive e viverão estão lá. É o criador, aquele que comanda.

Portanto, Isvara tem três corpos, mas se Isvara falasse diria Eu sou este universo todo? Não, ele é distinto do corpo grosso, pois a consciência é distinta do objeto que ela vê. O Eu não é o corpo, que é pesado, nem o corpo sutil, repleto de prana. Quando diz Eu também não está se identificando com o criador capaz de criar tudo.

Assim, consciência de flor é, a flor não é. Se retirarmos as pétalas, onde está a flor? Da mesma forma, a consciência é, o nome e a forma não são nada. São só nomes e formas. No mundo só existe a causa, os efeitos são aparentes. Isvara é a causa de tudo, mas ele é  também livre de tudo. Então quando Isvara diz Eu, ele quer dizer consciência. Simples e pura. O efeito é falso, é mithya, não tem existência própria. Quando digo Eu, é exatamente Isvara, uma identidade perfeita que existe entre os dois, indivíduo e todo, do ponto de vista da realidade. Uma só consciência, refletida em várias mentes. Não há fator de separação entre consciências. Ela é única e é o todo.

Assim, Deus (Isvara) não é um objeto para mim. Tudo existe em mim, e aí está a liberação, chamada de moksa – o ser livre de sofrimento, do nascimento e da morte; do samsara da vida. O que É não deixa de ser, nunca.

Vendo a minha realidade eu posso ser mortal; não morrendo eu posso morrer.

Om tat sat.

Trecho de uma aula do Instituto Visva Vidya, realizada pelo prof. Luciano Giorgio, transcrita por mim.

 

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a sombra

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Dizem que nós somos nossa morada. A nossa casa tem uma fachada, clara, visível e atraente, por vezes não. Mas revelam o que queremos que se revele ao outro.

De uma forma intensa e acumulativa, conforme vivemos vamos juntando traumas, histórias e memórias. Algumas memórias se congelam e permanecem, outras derretem-se no calor do tempo, entretanto há aquelas mais difíceis de ir embora sob o sol.

Sempre pairando sobre nossa ‘casa’ vive uma sombra, ela fica por detrás do que podemos perceber sozinhos e onde não há luz nem percepção tátil.

Por vezes, quando estamos com uma chama fraca, ela assombra mais forte, e, inusitadamente, leva a mente ao desespero.

Bem dentro da casa mora uma criança, ela é meiga, bonita e pura, e representa a verdade do mundo. Ela sente medo deste monstro! Medo quando não entende sua forma, quando suas falhas surgem pelo escuro e seus medos gritam e sua cara embranquece.

Certa vez, surgiu um lobo pela floresta ao redor da casa, sua mãe não estava. Esse lobo a fez se iludir e enganou a pobre criança se fingindo de fraco e amoroso, mas por fim, a presenteou com frutas amargas. Quando ele se foi, na solidão, a sombra surgiu com intensidade escancarando toda sua fragilidade. De imediato, houve muita resistência, choro, raiva e sentimentos de injustiça com sua fome.

Por orientações dos seus amigos da floresta e por um impulso e bênçãos, ela resolveu abraçar a sombra com amor e coragem, antes desta se manisfestar, violenta na madrugada da mente. Foi um ato secreto, instintivo, e então neste momento, ela se integrou àquela força que parecia monstruosa e, vislumbrou que a sombra só queria, na realidade, ser reconhecida e acolhida.

A criança, enfrentando-a, sentiu todo o medo e insegurança que sentia há anos; e sentou-se com sua sombra, e descobriu que ela era, na verdade, uma outra criancinha, também indefesa, que nunca se olhou e que tinha sido abandonada, por isso crescia sinistra e fortemente de forma incontrolável.

Tomaram chá na lareira e se descobriram grandes aliadas, cada uma pôde mostrar o que trazia em si. O lado luminoso e o lado obscuro, que era feio, se fundiram em um único ser, momentaneamente. Na verdade, após esse encontro, a criança sempre sabia e sentia quando a sombra ia chegar… Então, calmamente fervia uma água e acendia o fogo, clareando seu ambiente e agradecendo à existência de lobos que rondam e ensinam; e que também, se questionados a fundo, não passam de ovelhas que nos espelham.

Harih om.

Pollyana.

a única busca humana

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O primeiro tema a ser estudado em Vedānta é chamado tecnicamente de puruṣārtha-niścaya, a investigação sobre o que um ser humano (puruṣa) busca na sua vida, de qual é o fim ou objetivo (artha) da sua vida. A escolha deste como primeiro tema não é, obviamente, aleatória, mas tem como razão de ser o fato de que, para buscar a libertação com a prioridade e urgência que ela necessita, uma pessoa tem que entender que é só esse o único objetivo de todas as suas ações, e apenas isso ela quis e buscou quando dizia buscar querer tantas outras coisas.

Por uma mera questão didática é que somos informados, no início do estudo de Vedānta, de que existem quatro puruṣārthas, quatro buscas humanas: dharma – mérito; artha – segurança; kāma– prazer; e mokṣa – libertação, sendo esta última a busca mais nobre, a que mais “valeria a pena” caso eu a desejasse.

Mas já dizem os ditados: “Didática demais é moléstia” e “Quando a didática é demais, o santo desconfia”. Essa maneira de ensinar é usada muitas vezes no início do estudo apenas para não bater muito de frente com a ignorância das pessoas que estão apenas começando a investigação. Em outras palavras, ela, de fato, não faz realmente sentido. Vejamos por quê.

Quando falamos em mokṣa, libertação, estamos falando de libertação com relação a alguma prisão, bandha, alguma amarra que nos prende, em maior ou menor medida, com mais ou menos força, a algo específico do qual gostaríamos de nos livrar.

Quando dizemos que existe uma busca por segurança, artha-puruṣārtha, parece que buscamos realmente por riqueza, basicamente, na forma daquilo que proporciona os recursos materiais necessários para nossa sustentação e a sustentação dos nossos. Ou, se a pessoa for mais “esperta”, artha-puruṣārtha torna-se uma busca mais explícita por poder, já que ser poderoso significa dispor à vontade dos recursos dos outros, sem ter que se incomodar em levar a bolsa ou o cartão do banco quando sair de casa.

Contudo, se analisarmos rapidamente o que queremos quando queremos ser, em diferentes graus, ricos ou poderosos – protegidos de todo e qualquer contratempo com um bom emprego (público, de preferência), uma boa conta bancária, um bom plano de saúde, uma boa casa, bons amigos, etc. – veremos com toda a clareza que o que queremos não é o objeto dinheiro, ou as coisas que ele compra, ou as pessoas amigas ou subordinadas a mim; o que queremos de fato é estarmos livres da insegurança, o que, por sua vez, implica diretamente que queremos estar livres da noção de que “Eu sou inseguro”, pois a noção de insegurança só é uma prisão da qual quero me livrar quando eu mesmo estou metido bem no meio dela.

Acontece que, curiosamente, quando busco por segurança, indo trabalhar todo o santo dia e cercando-me de tudo aquilo que, imagino com alguma lógica, me garantirá mais um dia de confortável ou ao menos tolerável existência (nota para matutar depois: quem foi que me provou que sair no meio dessas grandes cidades brasileiras para trabalhar me garantirá estatisticamente uma maior possibilidade de existir por mais 24 horas do que simplesmente ficar em casa, na minha segura cama, que não é um beliche?!) não estamos reconhecendo e reforçando – de forma tanto mais implícita ou inconsciente quanto mais psicologicamente profunda, taxativa e inquestionável – que eu sou mesmo, solto por mim, um nada, a própria insegurança encarnada na forma de uma insignificante poeira no meio de um universo infinito que, no fim das contas, está me mastigando vivo a cada vez que como uma banana? (o leitor já sabe que, depois de certa idade, a vida é como na velha Rússia Soviética: não é você que come a comida, mas a comida que come você!).

Querem maior contradição? Buscar por artha, segurança, não significa admitir de antemão aquilo mesmo que você pretendia negar por meio da própria busca? Porque a busca por uma gorda conta bancária deveria servir para me deixar seguro; para, enfim, dizendo mais claramente, livrar-me da insegurança que eu sinto em mim; para, dizendo ainda mais precisamente, livrar-me da conclusão de que eu sou esse ser essencialmente inseguro e insignificante. Mas a conta bancária, a própria busca por ela, a própria necessidade atávica que sinto dela serve justamente ao propósito oposto: ela confirma a minha noção de insegurança da qual eu quero por meio dela me livrar. E a busca por um aumento da conta apenas aumentará a conclusão inicial de insegurança, assim como a maior quantidade de muletas e acessórios compensatórios apenas confirmam mais e mais a limitação de um pobre aleijado. Entendam: isto não se chama busca: chama-se embuste.

Neste sentido, a busca por segurança, artha, como uma meta da vida humana (dentro dos seus limites de manutenção cotidiana, e não como meta ou fim da vida, a busca por segurança é uma necessidade natural e indispensável, acho que posso assumir que entendemos isso sem maiores explicações) é inútil, anartha. Mais do que inútil, é contraproducente: produz o contrário daquilo que visa produzir, na medida em que confirma e legitima para o ser humano a sua conclusão natural de limitação.

Verdadeiramente, ao buscar por segurança na forma dos vários meios que a sociedade apresenta, o que o homem busca é ser livre do status de ser inseguro. Ele quer, portanto, mokṣa, libertação da noção de insegurança que o aprisiona e aflige. Desde quando, então, existem dois puruṣārthas, artha e mokṣa? Existe apenas conhecimento e confusão.

Assim como artha, o ser humano também busca por kāma, prazer, conforto, felicidade. Uma vez que os meios básicos de segurança estejam mais ou menos garantidos por um período de tempo em que possa relaxar, o ser humano, assim como outros animais, busca pelo prazer, por um momento onde possa relaxar das exigências da sobrevivência e se divertir. Kāma, a felicidade na forma de situações confortáveis e prazerosas torna-se uma busca, um puruṣārtha. Pois o ser humano não quer apenas existir sempre, não quer apenas ser por mais um dia. Ele quer ser e, sendo, ser feliz.

Contudo, não existe algo que seja felicidade no mundo. O mesmo pôr-do-sol, para duas pessoas diferentes, pode ser respectivamente uma grande felicidade e uma grande tristeza. A mesma pessoa que se alegra com o pôr-do-sol hoje, pode se entristecer com o mesmo fenômeno amanhã. De modo que, rigorosamente, o que uma pessoa quer encontrar ao buscar pela felicidade não é um objeto específico, mas o “eu feliz”, qualquer que seja a desculpa para que ele apareça.

Se a praia desperta em alguém, por algum meio, claro ou obscuro, o “eu feliz”, então a pessoa terá a praia como felicidade, ao menos até que se enjoe dela, o que cedo ou tarde acontecerá. A este respeito, recomendo um documentário pitorescamente intitulado “Neuronha”, que pode ser visto pelo menos em parte no Youtube, sobre pessoas que se encantaram com Fernando de Noronha e tiveram a (talvez não tão) brilhante ideia de se mudar para lá.

Não é difícil descobrir, analisando com a ajuda de Vedānta a experiência que todos temos de vez em quando deste “eu feliz”, que ele não é a soma do “eu” mais um objeto chamado “felicidade”. Se é que podemos falar em qualquer aritmética da felicidade, ela será uma aritmética de subtração, e não de soma. Eu sempre me encontro feliz comigo mesmo quando as conclusões de limitação, dor, mágoa e infelicidade não estão manifestas na mente. Exemplo máximo: sono profundo. No sono sem sonhos não há nada, isto é, a dualidade eu e mundo não está presente. Há apenas a minha presença, acompanhada universalmente pela experiência de felicidade, que reconhecemos ao acordar e inferimos da extrema boa vontade com que todos os seres se entregam ao apagão do sono, sem terem sequer a garantia de que se acenderão novamente no dia seguinte.

Poderíamos pensar que esta hipótese da subtração não vale para as situações em que ficamos felizes ao somarmos objetos e conquistas no mundo. Ela, no entanto, continua valendo, na medida em que o contato com o objeto de desejo só produz felicidade se conseguir, pelo impacto da sua presença, nocautear por algum tempo as conclusões de limitação que o sujeito faz sobre si mesmo. Se isso não ocorrer, a mesma piada engraçada que, somada a você, o faria gargalhar como um desarranjado mental, não lhe arrancará o mínimo sorriso, caso esteja você no mesmo instante preocupado com a mulher que o traiu, com a dívida do banco ou com seu filho gravemente doente.

Assim, na esteira da mesma lógica com que abordamos artha-puruṣārtha, podemos ver passar com clareza o fato de que ninguém busca realmente kāmas, objetos de prazer, mas apenas o status de estar livre da infelicidade, o que implica estar livre da conclusão de que eu sou essencialmente, por mim mesmo, infeliz. Todos, em nome da busca por kāma, queremos realmente mokṣa, a libertação da noção de infelicidade centrada no “eu”.

Como, porém, tudo se trata de um grande embuste, quanto mais uma pessoa busca por alcançar e manter objetos e meios para prazeres físicos, intelectuais, emocionais e tantas outras coisas para se sentir feliz e satisfeita, tanto mais ela carimba para si mesma a sua reiterada anuência de ser basicamente, por si mesma, infeliz e insatisfeita, de modo que nunca há um fim na busca por kāma, pois esta infeliz conclusão não só permanece intacta em qualquer experiência de prazer, mas é reforçada por ela, pela sua necessidade dela. Realmente não há nada de tão eficiente e produtivo como a contraproducência da ignorância. Kāma não é, portanto, uma meta, um fim (artha) da vida humana (puruṣa).

Por fim, chegamos ao chamado terceiro puruṣārtha: dharma, a busca por ser adequado em termos éticos e morais e também por acumular mérito no campo religioso ou espiritual. Em ambos os casos, trata-se de uma preocupação exclusivamente humana, não compartilhada com os animais, que agem apenas por instinto ou programação. Sendo programada para pastar, a vaca não ganha mérito em ser vegetariana e nem o leão leva demérito por comer carne de vaca.

Um ser-humano, entretanto, pode escolher o que comer levando em conta não só seu gosto pessoal ou sua tradição familiar. Ele pode decidir livremente levar o sofrimento dos animais em consideração e tornar-se vegetariano. Como isso, segundo os Vedas, ele ganha mérito, puṇya, um resultado invisível que será a causa de situações cômodas e prazerosas aparentemente fortuitas no futuro. Além desse resultado invisível, o ser-humano fica em relativa paz consigo mesmo quando age de acordo com o dharma, com o seu dever. Quando, ao contrário, ele pega atalhos morais para buscar por segurança ou prazer, a tendência é que ele fique culpado, internamente dividido, o que lhe impede qualquer relaxamento verdadeiro e, portanto, qualquer apreciação verdadeira do mundo.

Quer busque por uma mente em relativa paz no momento presente, quer busque por mérito para situações agradáveis futuras, a busca por dharma revela a busca humana por ser livre da noção de ser inadequado, errado, amaldiçoado. Não há busca por tornar-se adequado e nem busca por tornar-se merecedor se não houver, em primeiro lugar, a conclusão de que eu sou inadequado e não merecedor. O que uma pessoa busca não é o dharma, mas a libertação, moksha, da noção de inadequação e não-merecimento centrada no “eu”.

É claro que, como nas outras buscas, a busca pelo dharma através de uma vida de orações e ajuda ao próximo – uma vida que diríamos “santa” – não trará para a pessoa a total e completa libertação da noção de inadequação. Ao contrário, quanto mais santa for, mais terá consciência da limitação da sua capacidade de realmente ajudar o mundo, e silenciosamente confirmará aquilo mesmo que pretendia a princípio eliminar: a conclusão de que “Eu sou mesmo inadequado e não merecedor, afinal de contas”. O que se busca não é o dharma, mas o “eu feliz” que é obtido quando a mente não se julga inadequada e não merecedora. A ausência desses julgamentos não será alcançada se fizermos mais dharma, mais ações adequadas. Pelo contrário, a necessidade de ajudar mais é apenas o consentimento silencioso com a conclusão básica de inadequação, da qual eu quero me ver livre, total e completamente livre.

Se o dharma-puruṣārtha é também, como as outras buscas, apenas uma forma de o ser humano buscar ser livre das limitações que o acompanham, então todas as buscas são apenas por libertação, mokṣa. Não há nem nunca houve quatro buscas. Só existe uma, que definitivamente não é por dinheiro, poder, prazeres ou mérito. A única coisa que um ser humano busca é ver-se livre de ter que buscar, de ser um buscador constante. Em outras palavras, a sua única busca é pelo “eu” tão completamente adequado, pleno e livre quanto seja possível ser.

Se esse “eu” pleno é possível, então ele já existe, pois algo livre de limitação não pode ser produzido. Se já existe e não pode estar distante de você nem por um segundo e nem por um centímetro, pois é pleno, então você o ignora. Se você o ignora, você precisa de um meio para eliminar essa ignorância. Esse meio de conhecimento para o eu pleno chama-se Vedānta.

Se não me conhecia, muito prazer, acomode-se num canto em silêncio. Seja bem-vindo”.

Este texto foi escrito pela equipe do Vedantaonline.

Morte que te quero viva

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Qual a importância da Morte para o Desenvolvimento Humano?

O ano está acabando… e assim como tudo começa, temos a ilusão de que termina.

Faz-se necessário integrar esta ideia de fim cotidianamente, que faz parte de um desenvolvimento saudável do ser humano. Freud já em sua época relacionava a morte à ansiedade de castração. Este medo do inevitável, da certeza do fim pertence a todos; porém temos mecanismos de defesa que nos garante conforto e habilidade para poder viver sem precisar pensar neste assunto durante toda a vida, como a negação e o humor.

O medo da morte precisa ser integrado à consciência humana e garante maturidade, se não há, pode causar transtorn Continuar lendo “Morte que te quero viva”

O amor e o vazio

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vai que eu sou você.. art: Jarek Puczel

O amor talvez seja a maior força do universo, a conexão que os artistas sentem e expressam e o poetas de todo o tempo pintam e no qual se inspiram, sem falar nos compositores.

O amor permeia tudo e está por trás de cada ato de um ser. Ao acordar uma pessoa só levanta da cama por amor – seja a ela mesma, ao seu trabalho, à comunidade , à família, à vida. Ele é quem nos move sendo a base da nossa mente e coração. As pessoas são capazes de ter atitudes desafiantes e fazer até loucuras por ele.

Pensamos que o contrário do amor é o vazio. Mas vamos pensar melhor…

Se vemos algo negativo em alguém e pensamos – ah, essa pessoa não tem amor no coração; o que tem em seu lugar? Seria espaço..? Acho que não. Se a falta de amor instiga o ódio, a raiva, o medo, os julgamentos, a inveja ou o ciúme; de onde então vêm todos estes sentimentos que nos consomem? Aonde são criados?

Estas impressões dos sentimentos chamados de negativos por nós e as emoções que são desdobradas deles são na verdade saudáveis. Sua interpretação exagerada, com certa camada de ilusão, só vêm por uma incompreensão da ordem do mundo e da falta de apreciarmos que a sua origem é o amor, ao descolarmos esta emoção superficial vemos que é necessário até uma certa dose de amor para a tristeza florir. Toda emoção tem esse amor fundamental. Portanto, eles certamente vêm do amor também.

Assim se alguém está com raiva, significa que é por alguém que ela ama e que, no meio do caminho, por motivos quaisquer de ignorância, inocência ou incapacidade, ao não saber lidar com si mesmo nesta situação, ela se identifica a esta energia da raiva, se irrite e sofra. É um movimento natural, porém sua permanência e intensificação não o são. Por trás de tudo está o amor camuflado que é perene enquanto a raiva é uma emoção passageira e não é definitivamente você, só uma sensação da mente e do corpo provocados.

Há também quem diga que sua religião é o amor ou que Deus é amor – como diz o mantra Baba nam kevalam. O amor pode ser de vários tipos – afetivo em uma relação amorosa como um sentimento a alguém; incondicional aos filhos, animais, ao universo, ou seja ao outro como uma atitude que expressamos; ou o amor à Deus que traz a liberdade para amar.

Já o vazio é uma ilusão. Em se tratando das dualidades, o contrário do amor ou da plenitude não é o vazio. Há um mantra que nos diz: retirando a plenitude da plenitude, só plenitude resta.

O criador do universo, que chamamos de Deus na tradição védica damos vários nomes como Iśvara enquanto aquele que se manifesta; Viśṇo, enquanto aquele que está em todo lugar e tempo; Śiva enquanto aquele que produz o que é bom; Ganeśa enquanto aquele que remove os obstáculos por Ele mesmo colocado; Brahma como sendo o maior. Se dissermos que Deus (a divindade em que está pensando agora) é ilimitado e está em tudo e em todos, não há um lugar em que Ele não se encontre, um lugar reservado como um buraco negro livre de sua influência; portanto o vazio também pertence a Deus que é a própria felicidade, plenitude e amor. O vazio é neste caso cheio e se o amor está no espaço-tempo do universo, o vazio também é pleno de amor.

Quando algum relacionamento se acaba e pensamos que estamos sem um pingo de amor e jogados em um vazio já que tudo fugiu do nosso controle e nos vemos limitados, podemos pensar que nada brotará dali. Se estivermos em luto por alguém levados por Deus injustamente, lembremos que há o amor por trás; seja como uma manifestação, seja como a ordem e o próprio amor de Deus por nós só respondendo às nossas ações; pois ele é a matriz e a própria causa do mundo.

Se Deus está dentro de mim, e eu e o criador não somos separados e somos um, Deus sendo amor, e sendo o próximo (como diria o mestre Jesus) eu serei o amor também e não poderei encontrar o nada, o vazio; somente a plenitude, a felicidade, a devoção e a compaixão que é ānanda.

Esta felicidade pode relaxar nossa personalidade e se depositar na mente do coração – hṛdsthale manaḥ – de quem vive a vida como uma dança com amor e liberdade.

Portanto, a felicidade não pertence à mente, aquela que pensa, que julga e está aliada ao ego; ela está além da mente não sendo uma emoção, e sim nossa própria natureza de amor. Essa natureza não exige uma troca ou um sacrifício, ela se faz em toda relação que temos com o mundo ao rompermos a visão e divisão de que eu sou diferente de você. Oṃ

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uma simples purificação caseira

7808097cf86ae8b795e16eecbedb14b1Já realizei algumas purificações do corpo que se refletiram de forma magnífica na minha mente. É uma prática muito saudável e tida como rotina anual, com pessoas que a realizam até duas vezes ao ano e outras que seguem prescrições de terapeutas e médicos de ayurveda a cada outono como prevenção ou por algum desequilíbrio ou doença específica. De qualquer forma, o objetivo deste texto é introduzir uma breve noção e possíveis benefícios que podem fazer imediatamente para sua saúde.

Nos versos iniciais que cantamos para abrir os estudos dos Yogasūtras, há um trecho que diz: yogena cittasya padena vācāṁ malaṁ śarīrasya ca vaidyakena… Aqui é colocada pelos mestres a intenção de se eliminar as impurezas da mente através do yoga, as impurezas da fala pelo canto e mantras e as impurezas do corpo através da medicina do ayurveda. Quando descobrimos através da experiência vivida e praticada o quão benéfico pode ser fazermos uma desintoxicação no organismo, ela se torna um presente e um conhecimento a se prezar e espalhar, como uma grande ferramenta que podemos usar para viver mais e melhor. Desta forma, o panchakarma (pancha: cinco; karma: ações) se revela uma sábia prescrição feita pelos acharyas (professores) e médicos (vaidyas) da medicina tradicional indiana desde sempre presente na humanidade.

Como uma medida para se purificar e limpar o organismo das toxinas físicas e mentais (ama) a primeira medida presente nas preparações dos pancakarmas, mais precisamente presente no chamado poorvakarma, consiste em adquirirmos uma dieta mais leve e seca que garanta que nosso corpo deixe de produzir toxinas, consideradas alimentos não digeridos pelo organismo e que bloqueiam os canais de ar e alimento, basicamente. Elas se acumulam no corpo e também na mente seja por serem incompatíveis com seu biotipo (dośa) ou por outros motivos como uma má digestão intrínseca (agni) e ineficiente ou hábitos não saudáveis relacionados ao horários, quantidade, tipo e qualidade. No âmbito mental, as toxinas se tornam mentais e interferem nas nossa saúde emocional, podendo causar maior tensão.

De um jeito simples, escolha um período de 7 a 10 dias para sentir seu corpo livre de alguns alimentos que podem não ser tão bons para você. Esta dieta é para ser feita somente por um determinado período. O ideal é consumir alimentos sátvicos que são os frescos, integrais, orgânicos e cheios de prāṇā (energia vital, não presente por exemplo em alimentos congelados, industrializados, requentados…). Tente você mesmo cozinhá-los e preparar as refeições com tempo, só é preciso um pouco de organização e disciplina. Vamos lá?

Esta dieta chamada de antiama, ou antitoxina, é completa e possui as proteínas, vitaminas, carboidratos e os nutrientes necessários, mesmo se não estiver acostumado a não comer carne. Ela pacifica todos os dośas. O ideal é utilizar os legumes e verduras orgânicos, as frutas não são indicadas. Ela restringe qualquer espécie de alimento de origem animal, somente o mel é permitido, ou seja ovos, carne e leite não são indicados; verduras e legumes ácidos demais e fermentativos (como batata, tomate, berinjela, rabanete, espinafre, couve-flor, repolho e pimentões) não serão utilizados; estimulantes como álcool, café, chá preto e cigarro também não; não utilize cebola, nem alho; nenhum laticínio, nem alimentos processados, como o açúcar ou nada nada cru, como as saladas. Os feijões permitidos são o mung (moyashi), azuki e lentilhas.

Lembre-se esta dieta é por tempo limitado; ela promove uma maior leveza do organismo e diminui o excesso de kapha (peso, lassidão, preguiça) que pode se agravar no inverno; assim como promove clareza mental, disposição e entusiasmo ao removermos um peso que carregamos inutilmente. Ama (toxina) é uma substância pegajosa, fria, úmida e grosseira que existe realmente no organismo que age agravando os dośas e causando possíveis doenças. Se manifesta através do cansaço, entorpecimento mental, excesso de peso, dores diversas, falta de energia etc.

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Café da manhã: ideal até 9h30.

Um chá de gengibre c/uma erva digestiva (ferver água com gengibre ralado por uns 10 min., apagar o fogo e colocar a erva digestiva, tampar e esperar uns 5 min.) e 1 ou 2 fatias de pão integral torrado com mel. Ervas digestivas: erva-doce, hortelã, erva-cidreira, camomila, manjericão entre outras.

Almoço: entre 12 -14 hs.

Kitchari, você já deve ter ouvido falar; é um arroz bem cozido (integral ou branco, se a digestão estiver muito lenta, privilegie o branco) com uma leguminosa – feijão verde (moyashi ou mung dhal), feijão azuki, lentilhas verdes; e verduras e legumes cozidos e refogados no azeite de oliva, temperados com massala. Refeição completa e integral que te satisfaz. Não tem quantidade restrita, somente sua fome a ser saciada.

A Masala é uma mistura de especiarias tais como: cominho, coentro (pode ser fresco), gengibre em pó, açafrão da terra (cúrcuma), uma pitada de pimenta do reino, noz-moscada, etc.

Vegetais: podem todos, exceto os já citados anteriormente. Sugestões: bardana, inhame, cará, agrião, rúcula, acelga, escarola, beterraba, mandioquinha, catalonha, almeirão, quiabo, cenoura, vagem, abobrinha, cabotia…

Lanche: entre 16 -17 hs.

Um chá digestivo com pão integral torrado com mel.

Jantar: ideal jantar até às 20 hs

Sopa de legumes, um caldo ou um creme. Sugestão: mandioquinha com vagem e cenoura; inhame com agrião; cabotia com gengibre; cará com abobrinhas.

Pode-se usar sal marinho (não o comum) mas não exagerar na quantidade. Ghee é super bem-vindo para refogar os legumes, mas não exagere também.

Seja seu próprio curador. Faça essa simples purificação alimentar em sua casa, preferencialmente entre a junção de duas estações. Tome a responsabilidade pela sua própria saúde, você poderá experimentar uma grande mudança nos pensamentos e nos seus sentimentos, e se apaixonar pela sua vida e pelo que é.

<3 boas escolhas, bon apetit, bons pensamentos.

Oṁ namo śri bhagavate Dhanvantarie namaḥ.

 Gostou de ficar sem carne? quer entender melhor o vegetarianismo sem julgamentos?

poesia

b93c8e76b0461ca30a06cd1805871b75 Eu como um cavalo cego

Em um trote em disparada

Estou só e preso na ilusão

De só ser o couro e a sede.

Mas se acaso eu abro os olhos

Da mente e do coração

A felicidade é

A luz da minha visão.

Polly.

art: Elena Shved

A poesia dança nos versos sem precisar se explicar . . . veja mais essa incrível do professor Hermógenes. om.